Com a recente agitação em torno da subida dos preços do petróleo, é compreensível que os investidores tenham, por momentos, desviado a atenção do mercado bolsista norte-americano. Contudo, contrariando o velho ditado de que "uma panela vigiada nunca ferve", tanto o S&P 500 como o Nasdaq 100 conseguiram romper vários níveis locais de resistência e atingir novas máximas históricas desde o início do conflito entre o Irão e os EUA. A 20 de maio, apresentaram cotações de 7.432,97 e 29.297,70, respetivamente. As respetivas valorizações desde 30 de março são de 17% e 27%, que eliminaram todas as perdas do primeiro trimestre e assinalaram um crescimento de dois dígitos desde o início do ano para ambos os índices.
Naturalmente, este recente rally não é justificável apenas pela simples distração dos investidores. Na verdade, é o resultado de vários fatores convergentes a atuar em conjunto. Além do regresso do otimismo em torno da IA observado no período pós-pandemia, temos também a aceleração da inflação provocada pela crise do petróleo, que reduziu as taxas reais, bem como dados económicos mais fortes do que o esperado, reforçando a confiança dos investidores nos EUA. A insegurança geopolítica e uma Reserva Federal neutra continuam a atuar como contrapeso, mas as expetativas de um acordo de paz iminente e de uma nova orientação mais dovish para a política monetária também continuam a favorecer as ações.
É a economia
Ao nível fundamental, um dos principais catalisadores das recentes subidas das ações dos EUA foi a resiliência dos lucros empresariais e a crescente confiança dos investidores de que a economia norte-americana consegue suportar uma política monetária restritiva sem entrar em recessão. O S&P 500 apresentou cotações em torno do intervalo de 7.400 e 7.500 durante grande parte deste mês, enquanto o Nasdaq 100 ultrapassou a sua resistência-chave nos 26.000 em meados de abril. Aparentemente, os mercados estão cada vez mais a incorporar a perspetiva de uma "aterragem suave" para a economia dos EUA, apesar dos problemas persistentes no Estreito de Ormuz. Grande parte deste recente otimismo foi impulsionada por dados económicos que superaram as expetativas, sobretudo no mercado de trabalho.
Os dados mais recentes sobre o emprego não agrícola mostraram que a economia dos EUA criou cerca de 175.000 a 180.000 postos de trabalho em março e 115.000 em abril, mais do que o dobro das projeções, enquanto o desemprego manteve-se relativamente baixo, próximo de 4%, apesar das taxas de juro elevadas. O crescimento salarial também se manteve sólido, com as remunerações médias por hora a subir cerca de 3,5% em termos homólogos, o que continua a apoiar o consumo das famílias e a atividade económica em geral. Os investidores interpretaram a resiliência do emprego e da procura dos consumidores como prova de que a rentabilidade das empresas pode resistir, mesmo com os custos de financiamento a permanecerem elevados. A taxa de crescimento dos lucros do S&P 500 no primeiro trimestre situa-se atualmente em 27% a 29% em termos homólogos, com mais de 80% das empresas a demonstrar resultados superiores às expetativas dos analistas. Em simultâneo, a diminuição do receio de uma escalada mais ampla das tensões no Médio Oriente e alguma estabilização dos preços do petróleo ajudaram a melhorar o sentimento geral do mercado, após as anteriores preocupações com choques inflacionistas impulsionados pela energia. Embora a Reserva Federal tenha mantido um tom cauteloso em relação às taxas de juro, os investidores acreditam cada vez mais que o ciclo de aperto monetário continua a aproximar-se das suas fases finais, sobretudo após a nomeação de Kevin Warsh, o escolhido de Trump para presidente da Reserva Federal.
IA em alta
O segundo grande catalisador desta nova fase bullish foi, sem dúvida, a continuação da subida do investimento em tecnologia e IA, que concentra cada vez mais a liderança do mercado num grupo relativamente pequeno de empresas "mega-cap". Apesar da conversa interminável sobre uma potencial bolha, os investidores continuaram a canalizar capital para ações vinculadas a semicondutores, computação em nuvem (cloud) e infraestruturas, perante a expetativa de que o investimento em inteligência artificial continue a ser um dos temas dominantes a moldar os mercados globais nos próximos anos.
Antecipam-se investimentos coletivos de centenas de milhares de milhões de dólares em infraestruturas de IA e expansão de centros de dados, por parte de empresas como a Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta Platforms, com analistas a estimar que a despesa global de capital relacionada com a IA acabe por ultrapassar os 700 ou 800 mil milhões de dólares até 2026. Estas projeções ajudaram a impulsionar outro forte avanço nas ações de semicondutores, com o Philadelphia Semiconductor Index a subir acentuadamente em antecipação aos principais resultados trimestrais dos grandes fabricantes de chips.
Entretanto, a moderação da rendibilidade das obrigações do tesouro também apoiou os setores de elevado crescimento, após a volatilidade anterior associada às preocupações com a inflação. A taxa de rendibilidade das obrigações norte-americanas a 10 anos recuou novamente para uma percentagem inferior a 4,6%, após um breve aumento no início do mês. Ao considerar estes fatores em conjunto com a inflação acima da meta, observada devido à guerra no Médio Oriente (3,8% em abril), uma taxa real abaixo de 1% só aumenta o apetite pelo risco nas ações tecnológicas e torna as ações, de forma geral, mais atrativas para os investidores em todo o mundo. Os fluxos estruturais de capital para fundos de índices e ETFs conferiram um grau adicional de apoio, beneficiando sobretudo as maiores empresas que dominam os índices de referência. No entanto, o rally também se tornou cada vez mais concentrado, deixando o desempenho mais amplo do mercado fortemente dependente da continuação do dinamismo dos lucros e do entusiasmo dos investidores em torno do setor da IA. Isto não é necessariamente motivo de preocupação para quem investe em índices como o Nasdaq 100 e o S&P 500, mas o seu peso excessivo deixa as avaliações expostas a qualquer correção significativa no setor da IA.
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