Foi um ano vertiginoso para a maioria dos mercados, e as ações não foram exceção. Após um ano inicialmente com crescimento estável na sequência da eleição do candidato de Wall Street, as tarifas sem precedentes implementadas por Donald Trump durante o "Dia da Libertação" e a guerra comercial improvisada com a segunda maior economia mundial provocaram o caos nas bolsas de valores no início de abril. O S&P 500 e o Nasdaq 100 caíram -18% e -22%, respetivamente, abalando a confiança dos investidores. No entanto, com novos rumores sobre potenciais acordos comerciais, o novo ciclo bullish instalou-se rapidamente. Os dois principais índices norte-americanos registam atualmente valorizações de 38% e 49%, respetivamente, face às mínimas de 8 de abril, tendo atingido novas máximas históricas à data desta análise (22 de dezembro) de $6.863,66 e $25.484,64. E isto apesar da inflação persistente e da instabilidade geopolítica que afeta múltiplas regiões de peso.
Com o Rally de Natal em progresso, é difícil distinguir entre o crescimento genuíno assente em conceitos fundamentais sólidos, e o típico otimismo festivo que tende a inflacionar as ações durante esta época do ano. Não obstante, persistem de facto imensos fatores positivos para as ações, incluindo a transição dovish sobre a política monetária da Reserva Federal, relatórios financeiros que excederam todas as expetativas, e alguns indicadores macroeconómicos positivos. Ao longo deste artigo, avaliaremos todos os fatores de influência, e tentamos traçar uma possível trajetória para as bolsas de valores em 2026.
A economia que importa
Apesar do estado relativamente saudável da economia dos EUA, a inflação acima da meta foi um indicador negativo que persistiu ao longo de 2025. Contudo, é essencial salientar que esta situação ocorreu no contexto de três reduções das taxas de juro por parte da Reserva Federal, medidas consideradas necessárias, que reduziram a sua taxa de referência de 4,5% para 3,75% ao longo deste ano. Normalmente, taxas de juros mais baixas correm o risco de gerar inflação, por isso é realmente uma grande conquista que o Fed as tenha conseguido manter praticamente estáveis, especialmente com o fator adicional da guerra comercial e das tarifas que tornam os produtos artificialmente mais caros para os americanos. Os últimos dados do Índice de Preços no Consumidor (IPC) revelaram uma desaceleração da pressão sobre os preços para 2,7% em novembro, face a 3% em setembro, sugerindo a possibilidade de novos cortes sobre as taxas de juro no início de 2026. A relação inversa entre taxas de juro mais baixas e crescimento nas bolsas de valores já foi amplamente documentada, uma vez que o crédito mais barato reduz o interesse por ativos de rendimento fixo entre os investidores, aumentando consequentemente o seu apetite pelo risco. Conjugando este fator com a contínua desvalorização do dólar norte-americano, que registou uma queda de 2% no último mês e cerca de 10% desde o início do ano, as opções de investimento viáveis limitam-se, na prática, às ações, ao ouro ou às criptomoedas. Para a maioria dos investidores, o mercado de ações oferece o equilíbrio ideal entre risco, retorno esperado e acessibilidade. Esta premissa permanecerá válida no início de 2026, considerando a probabilidade relativamente elevada para um mercado bullish persistente. Contudo, atualmente, o Rally de Natal dificulta uma avaliação precisa sobre a robustez dos conceitos económicos fundamentais para suportar um crescimento sustentado a longo prazo. Um relatório do US Census Bureau sobre as vendas a retalho, datado de 16 de dezembro, indicou que os níveis de vendas se mantiveram inalterados entre outubro e setembro. No entanto, o período de crescimento relevante para estes indicadores ocorre naturalmente em novembro e dezembro, cujos dados serão publicados apenas no novo ano. Caso esses números correspondam ou excedam as expetativas, será um bom presságio para o desempenho do mercado de ações durante o primeiro trimestre de 2026.
Sob análise
Embora o desempenho do mercado de ações tenha sido inquestionavelmente robusto ao longo do presente ano, subsistem inúmeras possíveis ameaças contra a sua atual prosperidade. Para além da incerteza geopolítica não resolvida em regiões globais estratégicas, os dados de emprego mais recentes começam a inquietar os investidores, tornando provável a deterioração da situação após o término do período sazonal de contratações em janeiro. Como referiu Laura Ullrich, Diretora de Investigação Económica para a América do Norte no Indeed Hiring Lab, o relatório de emprego publicado pelo Bureau of Labor Statistics na passada terça-feira (16 de dezembro) "pinta um quadro sóbrio de um mercado de trabalho à beira de tornar-se gélido após um prolongado período de arrefecimento". O relatório de emprego não agrícola (non-farm payrolls) revelou que a economia norte-americana criou apenas 64 mil postos de trabalho em novembro, registando um declínio significativo face às 119 mil novas contratações de setembro (o mês mais recente com dados disponíveis). Além disso, a taxa de desemprego aumentou de 4,4% em setembro para 4,6% em novembro, o que, apesar de manter um nível historicamente baixo, constitui o valor mais elevado deste indicador desde 2021. Evidentemente, os indivíduos desempregados não dispõem de capital disponível para investir em ações, e as empresas que não têm capacidade para contratar pessoal tipicamente não apresentam um desempenho ideal. Este é o motivo pelo qual a taxa de desemprego funciona como um indicador sobre o desempenho do mercado de ações. Apesar dos presentes fatores, os resultados empresariais foram surpreendentemente sólidos, com mais de 50 empresas do S&P 500 a publicarem projeções positivas relativamente ao seu índice de lucro por ação (LPA). Para o quarto trimestre de 2025, a taxa estimada de crescimento de resultados (ano a ano) para o S&P 500 foi estabelecida nos 8,3%. Perante confirmação, este será o décimo trimestre consecutivo de crescimento do indicador LPA. O Produto Interno Bruto (PIB), talvez o principal indicador da saúde económica global, deverá igualmente encerrar o ano com uma expansão de +3%, proporcionando um suporte sólido às ações. Este contexto é particularmente relevante face ao atual cenário de taxas de juro e rendimentos mais baixos, tanto a nível nominal como real.
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