O ouro é conhecido pela sua capacidade de proteção contra a inflação, mas, atualmente, comporta-se mais como um barómetro político. Após passar grande parte do verão a oscilar entre a esperança e o desespero, atingindo em meados de agosto uma máxima de dois meses de $4.450 com leituras mais moderadas da inflação, para recuar novamente, após o discurso do presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, em Jackson Hole, a cotação do metal amarelo nesta manhã (10 de setembro) era de $4.400. Isto representa uma queda de 0,9%, após notícias de que os EUA atacaram cinco navios-tanque iranianos durante a noite. Esta dinâmica remete-nos ao paradoxo do ouro em 2026: uma escalada geopolítica que, em teoria, deveria favorecer o ouro está, em vez disso, a reacender os receios de inflação, a fortalecer o dólar e a pressionar o metal. A prata está cotada a $65,90, com o rácio ouro/prata num nível historicamente elevado de 66,9. Para alguns, este nível sugere uma oportunidade de compra na prata, e para outros, uma desvalorização justificada de um metal cujas perspetivas de procura industrial sofreram uma revisão negativa acentuada. O que une ambos os metais esta semana é a mesma variável que influenciou praticamente todos os movimentos relevantes dos preços dos metais preciosos desde maio: a reunião da Reserva Federal de 16 de setembro e os dados que determinarão o seu desfecho.
Atualmente, existem dois temas que agitam o ouro em direções opostas, e ambos exigem uma análise cuidadosa. Primeiro, a difícil tarefa de Warsh em equilibrar a política monetária, e os dados que acabarão por finalmente desfazer a incerteza quanto à decisão de setembro. O segundo é o panorama da procura estrutural dos dois principais metais preciosos, incluindo as compras governamentais, a desdolarização e o relatório do World Gold Council relativo ao segundo trimestre, consideravelmente mais matizado do que o sugerido pelos números nas manchetes.
Warsh, Waller e a semana determinante
A Reserva Federal foi, quase por si só, responsável pelo difícil percurso do ouro em 2026. Antes do discurso de Warsh em Jackson Hole, a 29 de agosto, a probabilidade de uma subida das taxas em setembro situava-se num nível relativamente confortável de 30%. Os analistas do Citigroup classificaram as suas declarações como "hawkish, mas marginalmente", porém, foram aparentemente suficientes para elevar essa probabilidade para 56% segundo a ferramenta FedWatch da CME e para 48% nos mercados de previsão. A 3 de setembro, o governador Christopher Waller recuou parcialmente, ao sinalizar que poderia apoiar a preservação das taxas caso a inflação continuasse a abrandar, recuando a probabilidade de subida para 52,4%. Esse único comentário de Waller fez a prata subir quase 4% na sessão da manhã, para $67,91, e ajudou o ouro a recuperar de mínimas. O relatório do emprego divulgado na sexta-feira (4 de setembro) não trouxe, infelizmente, a clareza necessária: o emprego não agrícola nos EUA aumentou em 162.000 postos de trabalho, representando uma subida suficientemente forte para manter os receios de subida das taxas de juro, mas não suficientemente decisivo para encerrar o debate. Os futuros de Fed Funds (fundos federais) refletem atualmente uma subida em setembro com uma probabilidade entre os 50% altos e os 60% baixos, tornando a divulgação do IPC de agosto nesta sexta-feira (11 de setembro) num dos dados mais determinantes para o mercado do ouro este ano. Uma variação mensal do IPC subjacente de 0,2%, ou menor, aumentaria a probabilidade de manter as taxas de juro, enquanto uma leitura de 0,3% ou mais poderia elevar a probabilidade de subida para mais de 70% e transformar a reunião num mero exercício de validação. O Bank of America defendeu que o discurso de Warsh em Jackson Hole revelou uma "Fed mais credível", que mantém a sua previsão de três subidas das taxas de juro. A potencial implementação dos três aumentos pela Reserva Federal poderia sugerir que o ouro está atualmente subvalorizado com a atual cotação de $4.400. Em contrapartida, a Goldman Sachs e o RBC mantêm as suas previsões para o ouro no final do ano no intervalo entre $4.500 e $5.000, partindo do pressuposto de que as compras oficiais e as perspetivas de inflação mais moderada acabarão por prevalecer. Uma coisa é certa: por esta altura na próxima semana, as perspetivas serão bastante mais claras, e o ouro pode romper significativamente ou confirmar o nível de resistência que o limita desde janeiro.
Bancos centrais, défices e procura estrutural
Para além da volatilidade inerente às previsões de subida das taxas, o panorama da procura estrutural do ouro continua a ser um dos mais convincentes da história do ativo, apesar das atuais complicações. Os dados do World Gold Council demonstram que os bancos centrais compraram 289 toneladas de ouro no segundo trimestre, assinalando o trimestre mais forte de 2026. A Polónia e a China mantiveram os seus lugares entre os maiores compradores oficiais, prosseguindo o plano de diversificação afastado de ativos denominados em dólares, implementado de forma consistente há quatro anos consecutivos. Um inquérito de 2025 revelou que 95% dos bancos centrais esperam que as reservas globais de ouro aumentem em 2026, face a 81% em 2024 e 52% em 2021. Com economias como a China a deterem ainda menos de 10% das suas reservas em ouro, face a uma média global de 27% entre os bancos centrais, a lacuna estrutural a colmatar mede-se em décadas, não em trimestres. Contudo, é importante salientar que as compras oficiais no primeiro trimestre de 2026 foram consideravelmente mais complexas do que poderiam parecer: os bancos centrais venderam 129 toneladas, enquanto as compras líquidas reportadas ascenderam a apenas 16 toneladas. Ainda assim, a metodologia alternativa de dados do World Gold Council, baseada nos fluxos do mercado de balcão (OTC) de Londres e em dados comerciais de refinarias suíças, estimou as compras efetivas do primeiro trimestre em 244 toneladas, após contabilizadas as compras não reportadas. A situação da prata é um pouco mais simples, embora mais difícil de resolver. A J.P. Morgan reduziu a sua previsão para a prata no quarto trimestre de $90 para $63, citando a queda da procura no setor da energia solar, sem fazer qualquer referência à Reserva Federal. Estimou a redução em cerca de 60 milhões de onças, superior ao défice estrutural de 46,3 milhões de onças previsto para 2026. A implicação é séria: mesmo um mercado com um défice estrutural pode registar quedas de preços, perante uma desilusão inesperada em qualquer categoria vital para a procura. Com o rácio ouro/prata a oscilar de 61,7 para 70,4 e novamente para 66,3 em apenas doze semanas, a prata continua a ser o metal precioso com beta e volatilidade mais elevados. Pode superar significativamente as expetativas quando as condições se alinham, mas é igualmente propensa a um desempenho inferior quando um dos seus vários centros de procura enfraquece. Independentemente do que venha a acontecer no outono, será a divulgação do IPC de sexta-feira que confirmará um cenário favorável aos touros (otimistas) ou deixará a porta aberta para os ursos (pessimistas).
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