Há um ano, os investidores em Bitcoin tinham motivos para celebrar, e que bom foi contar os zeros nas suas contas bancárias. A criptomoeda original atingiu um impressionante máximo histórico de $126.073 a 6 de outubro de 2025, impulsionada por uma combinação poderosa de redução da oferta pós-halving, injeção de capital institucional alimentada por ETFs e um ambiente regulamentar que, pela primeira vez, começava a parecer verdadeiramente favorável. Contudo, e como já nos habituou o mundo das criptomoedas, a festa terminou abruptamente. Poucos dias após esse pico de outubro, um volume recorde de liquidações alavancadas no valor de $19 mil milhões iniciou uma espiral no preço do Bitcoin, que passou de um nível superior a $121.000 para $106.000 numa questão de horas, e a trajetória descendente persistiu desde então. Esta manhã (25 de junho), o Bitcoin está cotado a $61.652, cerca de $43.500 abaixo do nível registado durante o mesmo período no ano passado e mais de 50% abaixo do seu auge. A pergunta que divide a comunidade cripto neste momento é simples, mas decisiva: trata-se de um ciclo a evoluir exatamente como previsto, ou existe algo estruturalmente mais preocupante a influenciar os preços?
A resposta, como sempre acontece com o Bitcoin, exige a análise de vários fatores complexos em simultâneo. Por um lado, encontramos o contexto macroeconómico e uma Reserva Federal mais restritiva. Do outro, temos os avanços regulamentares e a infraestrutura institucional que, segundo os defensores, mudaram de forma permanente a natureza das criptomoedas. Com este artigo, pretendemos analisar estes fatores principais e outros elementos enquanto tentamos traçar o futuro percurso do Bitcoin.
Taxas, saídas de capital e o efeito Warsh
De momento, o ponto de pressão mais imediato sobre o Bitcoin provém de algo que seria encarado como paradoxal pelos veteranos das criptomoedas há uma década: a Reserva Federal dos EUA. A primeira reunião do FOMC com o novo presidente, Kevin Warsh, assinalou um ponto de viragem restritivo, com Warsh a manifestar um compromisso firme com o regresso da inflação à meta de 2%. Esta posição foi influenciada em parte pelo IPC de maio, que apresentou uma taxa de 4,2%, significativamente superior ao objetivo. A CME FedWatch aponta para uma probabilidade de cerca de 36% de subida nas taxas de juro após a reunião de julho, com os mercados a incluir nos preços um aumento de pelo menos 25 pontos base antes do final do ano. Para um ativo sem rendimento próprio como o Bitcoin, este é um enquadramento particularmente desfavorável. A Wintermute observou que o comunicado de junho da FED foi mais curto, que a tendência de flexibilização desapareceu por completo e que os responsáveis revelaram maior disponibilidade para aumentar do que cortar.
Trata-se de uma clara mudança de tom que levou os traders a afastarem-se dos ativos de risco de forma generalizada. O dinheiro institucional que entrou com tanto entusiasmo nos ETFs de Bitcoin à vista (spot) ao longo de 2025 começou a sair: os ETFs de Bitcoin spot registam seis semanas consecutivas de saídas, com quase 160 milhões de dólares retirados destes produtos apenas na última semana, enquanto as saídas líquidas no conjunto dos ETFs ultrapassam 6 mil milhões de dólares nos últimos 30 dias. A acrescentar mais uma camada de complexidade, o diretor de investimentos do Syz Group atribuiu parte da recente debilidade do Bitcoin a um efeito de deslocação, com o capital especulativo a procurar ações vinculadas à IA e chips de memória, enquanto o projeto de lei sobre a estrutura do mercado das criptomoedas, conhecido como o Clarity Act, um catalisador institucional essencial, está cada vez mais fora do alcance, à medida que as prioridades legislativas mudam e os legisladores permanecem divididos sobre as suas principais diretrizes. Até que seja observada uma estabilização nos fluxos dos ETFs e a Reserva Federal sinalize pelo menos um indício de flexibilização, é provável que o Bitcoin permaneça cotado num intervalo definido.
A tese do ciclo e as vantagens para os investidores pacientes
Apesar dos dados fundamentais amplamente negativos, o cenário pessimista para o Bitcoin está longe de ser a única estatística relevante. Um conjunto crescente de análises de dados da blockchain e estudos de ciclos históricos sugere que o panorama atual não é um colapso estrutural, mas uma consolidação extremamente familiar após máximas históricas: desconfortável, mas, em última análise, temporária. Desde o evento de liquidação de 19 mil milhões de dólares em outubro de 2025, a estatística de lucro/perda líquido não realizado do Bitcoin caiu para cerca de 19%, uma tendência consistente com a fase de medo e consolidação que antecedeu todas as recuperações significativas do Bitcoin em ciclos anteriores. Jurrien Timmer, da Fidelity, observa que o pico de outubro de 2025 do Bitcoin, registado 145 semanas após o início da ascensão, enquadra-se nos padrões dos ciclos históricos, tanto no preço como no calendário, e que os mercados de baixa subsequentes duram normalmente cerca de um ano. Seguindo a lógica, 2026 seria apenas um "ano de pausa", com suporte no intervalo de $65.000 a $75.000.
No plano regulamentar, o avanço do Clarity Act pelo Comité Bancário do Senado a 14 de maio representa um progresso significativo rumo a um enquadramento mais claro para os ativos digitais e, embora ainda não tenha influenciado os mercados, está a construir discretamente a arquitetura jurídica há muito exigida pelos investidores institucionais. Recentemente, o progresso das negociações de paz entre os EUA e o Irão na Suíça já proporcionou um impulso de curta duração, com o Bitcoin a atingir brevemente $66.230, após o acordo ter garantido a reabertura do Estreito de Ormuz e levado os preços do crude para mínimos de três meses. Foi um lembrete sobre a velocidade com que o sentimento pode mudar quando o panorama macroeconómico se torna mais claro. Como resumido por um analista: "É provável que as criptomoedas permaneçam instáveis até recebermos orientações acomodatícias de Warsh ou um catalisador claramente positivo do lado das criptomoedas, com a aprovação do Clarity Act no topo da lista". Os referidos pontos de influência não são iminentes, mas também não estão tão distantes como sugerido pelo atual sentimento pessimista.
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