Os últimos meses foram uma verdadeira montanha-russa para várias classes de ativos. Entre a guerra no Médio Oriente, o encerramento do Estreito de Ormuz, a aceleração da inflação e a deterioração da confiança, muitos instrumentos mais arriscados registaram uma volatilidade acrescida. Como seria de esperar, este efeito foi particularmente acentuado no universo das criptomoedas. O Bitcoin caiu quase um terço, desde as suas máximas de janeiro em torno de $95.000 para uma mínima de $63.326 após o início da guerra entre os EUA e o Irão, no final de fevereiro. Contudo, durante o último mês, a criptomoeda original recuperou em força e atingiu os $81.714,46 a 6 de maio, acumulando uma subida de 18% desde 6 de abril.
À primeira vista, as razões por detrás desta recuperação súbita e acentuada não são claras. A guerra intensificou-se, e a inflação associada, juntamente com os custos operacionais mais elevados, começou a pesar tanto sobre os consumidores como sobre as empresas. Apesar das circunstâncias, as entradas em ETFs continuam a subir, à semelhança da rendibilidade das obrigações soberanas. Como veremos pela informação contida neste artigo, os principais fatores incluem a exaustão da atividade de retirada de lucros e a acumulação de "baleias" nos mercados, e os dados sobre o mercado de trabalho, inflação e política da Reserva Federal irão provavelmente influenciar os futuros movimentos a médio prazo.
Seguir os fluxos
A recente subida do Bitcoin até à zona dos $80.000 e a sua forte consolidação em torno desse nível está menos associada ao momentum, e mais vinculada à procura estrutural persistente que enfrenta uma base de detentores confortáveis em manter as suas posições. Nas últimas semanas, o Bitcoin subiu de forma consistente, com sucessivos testes ao nível de suporte que foram facilmente absorvidos, sem o tipo de cascata de vendas forçadas que observámos em ciclos anteriores. Nesta circunstância, a principal diferença é a procura sustentada por ETFs à vista (spot). Segundo a SoSoValue, abril foi o mês mais forte de 2026 para os ETFs de Bitcoin, com entradas superiores a $1,97 mil milhões. Isso eleva as entradas líquidas desde o início do ano para cerca de $1,47 mil milhões, enquanto as entradas líquidas acumuladas desde o seu lançamento subiram para aproximadamente $58 a $59 mil milhões.
Tudo indica uma reversão do sentimento bearish (pessimista) entre a classe mais cética de investidores em criptomoedas, incluindo instituições e investidores tradicionais. Isto é relevante porque os fluxos de capital em ETFs representam mais do que simples sentimento de mercado. São um barómetro sobre a procura direta no mercado à vista. Quando os ETFs recebem capital, o mercado subjacente tem de absorver essas compras, traduzindo-se numa valorização rápida. Contudo, apesar desse forte suporte, o Bitcoin não ascendeu de forma dramática. Isso sugere que o mercado está atualmente em fase de equilíbrio, em que a acumulação institucional constante é compensada pelas retiradas de lucros, cobertura de risco e uma base de investidores compreensivelmente cautelosa. Altcoins como Ethereum e Solana acompanharam a subida, embora de forma seletiva, exibindo momentos de força, mas com valorizações equivalentes a metade da ascensão do Bitcoin (+10,5%) no último mês, não existem sinais de uma participação especulativa alargada. Por enquanto, o mercado parece movimentar-se na direção positiva. O Bitcoin e outras moedas principais continuam a registar um aumento da procura, e o capital está a acumular-se para responder a essa procura.
Apetite pelo risco
Será possível manter a atual tendência de alta, ou até conferir-lhe alguma força adicional? Tudo dependerá do contexto macroeconómico dos EUA, em particular da força do dólar, das taxas de juro e do apetite geral pelo risco, representando fatores com muito mais peso do que as notícias associadas às criptomoedas. No último mês, o Bitcoin apresentou resiliência e até uma valorização com dados macroeconómicos apenas estáveis, sem grandes surpresas positivas, mas existem poucas evidências de que seja totalmente imune às condições financeiras e geopolíticas. Felizmente para o BTC, os dados mais recentes do mercado de trabalho dos EUA sugerem que a economia está a aguentar-se, apesar do conflito no Médio Oriente e da crise petrolífera associada. Segundo os dados do ADP National Employment Report, divulgado a 6 de maio, os empregadores privados dos EUA criaram 109.000 postos de trabalho em abril, superando as projeções consensuais de cerca de 99.000. Embora não se trate propriamente de um mercado laboral em forte expansão, é suficientemente sólido para sugerir que a economia dos EUA permanece resiliente perante os atuais desafios geopolíticos. Em simultâneo, os mercados continuam a incorporar a probabilidade de uma longa espera até ao próximo corte de taxas por parte da Reserva Federal.
No caso das criptomoedas, isso é importante porque o mecanismo de transmissão imediato costuma ser o dólar norte-americano e a rendibilidade real dos títulos soberanos. Um dólar mais forte tende, em geral, a apertar a liquidez global e a travar o tipo de apetite agressivo pelo risco que impulsiona o desempenho superior das altcoins. Contudo, é importante salientar que, embora a rendibilidade dos títulos do tesouro esteja próxima das máximas de 2007, o impacto da inflação que parece mais elevada do que o sugerido pelos números oficiais alimenta o apetite por investimentos de maior risco e maior retorno. Em termos práticos, o cenário de curto prazo é o seguinte: se as entradas em ETFs permanecerem na ordem dos $150 a $500 milhões por semana, o Bitcoin poderá provavelmente estabelecer um nível sólido de suporte ou resistência em torno dos níveis atuais. No entanto, para iniciar um novo ciclo ascendente sustentável, bem superior à zona dos $80.000 - $82.000, será provavelmente necessário um dólar mais fraco, uma queda na rendibilidade das obrigações do tesouro ou um aumento mais claro do apetite geral pelo risco.
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