Na sequência de um breve declínio após a política tarifária sem precedentes de Trump com o Dia da Libertação, o mercado bolsista norte-americano recuperou rapidamente e desafiou singularmente as expetativas, registando um crescimento de quase 30% no centro do avassalador panorama de incerteza geopolítica e comercial. Depois, surgiu a mais recente paralisação do governo ("shutdown"), que muitos pensaram ser o catalisador para uma correção há muito aguardada. Mesmo com o final da paralisação de recorde de 43 dias no horizonte, parece que nem estas notícias conseguiram trazer o mercado de ações de volta à realidade. Os índices de referência dos EUA, S&P 500 e Nasdaq 100, estavam cotados perto das suas máximas históricas de 6851 e 25.517 pontos, respetivamente, a 13 de novembro. Os legisladores votaram a 12 de novembro um projeto de lei que tinha sido aprovado no Senado na noite de segunda feira para reabrir o governo, para satisfação do Presidente Trump, que espera uma revitalização de todos os mercados dos EUA.
No entanto, os impactos diretos e indiretos a longo prazo desta paralisação na economia dos EUA ainda são desconhecidos. Isto é especialmente relevante enquanto a Reserva Federal prepara a sua decisão de política monetária para dezembro, e as empresas norte-americanas começam a publicar as suas receitas trimestrais, com projeções divididas e potenciais resultados medíocres. A contínua guerra comercial com a China, um mercado de trabalho debilitado e o risco representado por ações sobrevalorizadas no setor de tecnologia e IA podem acabar por ser a gota de água. Contudo, o mercado bolsista norte-americano superou todas as expetativas e longo deste ano e ainda mais. Assim, ao analisarmos todos estes fatores e outros, permanece a questão: durante quanto tempo podem as ações dos EUA continuar irracionais, e será que poderão mesmo evitar uma correção por completo?
De volta ao trabalho
Apesar de o presidente Trump ter classificado a medida como "uma vitória muito significativa" e os futuros do S&P 500 e do Nasdaq 100 terem registado valorizações de 0,4% e 0,6%, respetivamente, antes da votação de ontem à noite, não há dúvidas de que a paralisação já causou danos significativos à economia dos EUA. O Congressional Budget Office estima que a paralisação de seis semanas reduzirá o crescimento do 4.º trimestre em cerca de 1,5%, um impacto particularmente prejudicial durante a época natalícia, tradicionalmente caracterizada pelo elevado crescimento. Adicionalmente, a indisponibilidade de dados e estatísticas governamentais durante o último mês e meio impediu a Reserva Federal de monitorizar a inflação, o mercado de trabalho e outros indicadores macroeconómicos essenciais. A informação que foi divulgada está longe de ser positiva, com os últimos dados de alta frequência recolhidos pela ADP a indicarem uma contração do mercado de trabalho privado no final de outubro. Tendo em conta a abordagem cautelosa da Reserva Federal, que aguarda persistentemente por dados positivos, este cenário deverá reduzir as hipóteses de um novo corte nas taxas de juro antes do final do ano. Não obstante, a ferramenta FedWatch da CME continua a atribuir uma probabilidade superior a 50% para uma redução para a banda de 350–375 pontos base, demonstrando otimismo entre os participantes de mercado. Caso o corte de taxas se materialize, é provável que este se conjugue com o tradicional efeito do "Santa Claus Rally" (valorização típica na época natalícia) para impulsionar as ações norte-americanas para um novo auge antes do termo do ano.
No mínimo, é seguro afirmar que o pior impacto da agora extinta paralisação já foi absorvido. Afinal, como nos ensina a primeira regra dos investimentos, o mercado de ações é um "mecanismo de desconto" e tipicamente antecipa os fundos e os topos do mercado. Consequentemente, o facto de os índices norte-americanos não terem registado imediatamente um declínio severo associado à paralisação e aos seus efeitos secundários significa que essa mesma queda é improvável.
Um sinal dos tempos
Não é segredo que o dólar norte-americano tem vindo a enfraquecer há algum tempo, com uma desvalorização de quase 20% face aos seus principais concorrentes na Europa desde 2022. Os bancos centrais globais, particularmente os dos BRICS e do Sul Global, estão a afastar-se da moeda norte-americana em favor do ouro, do Bitcoin e até de outras moedas fiduciárias, como o yuan. Numa recente entrevista, o presidente da Rockefeller Capital, Ruchir Sharma, afirmou antever o fim do desempenho absurdamente positivo dos EUA nos mercados globais em 2025, à medida que os investidores começam a "punir" os EUA pelo seu défice excessivo. Entretanto, no inquérito de junho do Bank of America, mais de metade dos investidores globais espera que as ações internacionais superem as dos EUA nos próximos cinco anos. A China demonstrou vontade de retaliar na guerra comercial com as recentes atualizações aos seus controlos de exportação de terras raras, o que poderá significar dificuldades significativas para o mercado norte-americano, altamente dependente do setor tecnológico para a sua prosperidade.
A NVIDIA regista agora uma queda de 5% em termos homólogos, com a desilusão provocada aos investidores após a revisão das suas projeções para o próximo ano. Alguns analistas chegaram a comparar o atual boom das ações relacionadas com a inteligência artificial à bolha "dot-com" do início dos anos 2000. Escusado será dizer que uma quebra neste setor teria um tremendo impacto negativo sobre o Nasdaq 100 e o S&P 500, ambos fortemente vinculados ao desempenho destas empresas e daquelas que dependem dos seus produtos. Mas o problema não se confina à inteligência artificial. As avaliações em todos os mercados norte-americanos estão extremamente elevadas, com a Goldman Sachs a salientar que as margens de lucro líquido e o retorno sobre o capital próprio no S&P 500 são tão elevados, que um crescimento significativo do lucro por ação é bastante improvável. Contudo, ao contrário de outros ciclos de "boom e bust" (expansão e queda acelerada), a diferença reside atualmente na conjugação de uma inflação relativamente alta e liquidez de baixo rendimento. Para preservar a riqueza, os investidores devem deter partes tangíveis da economia real, o que poderá fazer com que as avaliações irracionalmente elevadas continuem a subir gradualmente.
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