Após cinco meses desmoralizantes de descida lenta e persistente desde a máxima histórica de $5.597 registada em janeiro, o ouro está finalmente a mostrar movimentos que indicam um potencial ímpeto contínuo. O ouro à vista atingiu esta semana o seu nível mais elevado em mais de três meses, com os futuros de dezembro a ultrapassarem brevemente os $4.700 antes de uma ligeira correção deixar o metal cotado em torno dos $4.648 na noite de 26 de agosto. Isto representa uma recuperação superior a 16% face às mínimas intradiárias de $4.000 no início de julho. Entretanto, a prata, que perdeu imenso terreno durante todo o verão, conseguiu consolidar suporte perto dos $68 por onça antes de recuar a 26 de agosto, à medida que novos dados económicos dos EUA complicaram as perspetivas para as taxas de juro da Reserva Federal. Os fatores por detrás desta recuperação são claros: a queda dos preços do petróleo após alguns progressos nas negociações entre o Irão e os EUA sobre o Estreito de Ormuz, o recuo da rendibilidade dos títulos do Tesouro e um dólar mais fraco, à medida que os receios de recessão ganham terreno face às apostas nas subidas das taxas. Menos claro, e algo que provavelmente ficará resolvido até 29 de agosto, é se esta é uma recuperação sustentável ou uma subida pré-evento prestes a ser interrompida pelo presidente da FED, Kevin Warsh.
Dificilmente o timing da recuperação do ouro poderia ser mais dramático. O Simpósio de Jackson Hole de 2026 decorre desde hoje, 27 de agosto, até 29 de agosto, abordando a política monetária, e Warsh deverá proferir o seu primeiro discurso principal como presidente da Reserva Federal, apenas três semanas antes da crucial reunião do FOMC de setembro. A leitura do índice de preços PCE de 27 de agosto ficou ligeiramente acima do esperado, com uma subida de 0,2% em julho, face à previsão de 0,1%, enquanto a inflação anual atingiu 3,7% e o PCE subjacente se manteve nos 3,3% em termos homólogos. Isto está longe de ser desastroso, mas também está longe do cenário claramente dovish que os investidores otimistas no ouro esperavam antes do discurso de amanhã. As duas principais narrativas que determinarão o próximo movimento do ouro são a trajetória da política da Reserva Federal e o panorama da procura estrutural, que tem continuado a desenvolver-se discretamente. Como sempre, ambas contam histórias bastante diferentes.
A incógnita Warsh
Os mercados estão a atribuir uma probabilidade de cerca de "um em três" para uma subida das taxas em setembro, fazendo do discurso de Warsh um potencial fator decisivo para a direção da política monetária nos próximos meses. A inflação mantém-se teimosamente acima da meta de 2% da Reserva Federal, nos 3,4%, enquanto o crescimento económico, até agora estável, mostra sinais de ceder sob o peso das tensões comerciais e da incerteza geopolítica. Na reunião do FOMC de 29 de julho, o comité votou 9-3 para manter as taxas entre 3,50% e 3,75%, naquela que foi a votação divergente mais hawkish da Reserva Federal desde setembro de 2016. Posteriormente, Warsh disse aos jornalistas que o seu discurso em Jackson Hole seria "como uma folha em branco", sem dar qualquer indicação sobre o que está reservado para o futuro e deixando em aberto a possibilidade de um discurso filosófico abrangente ou de uma exposição detalhada da política da entidade regularora para o outono. As atas da reunião do FOMC de julho, divulgadas na semana passada, revelaram um apoio mais amplo a uma potencial subida das taxas do que o sugerido pela votação formal de 9-3. As atas sobre as discount rates (taxa de desconto), por exemplo, revelaram que quatro dos doze conselhos dos bancos regionais da Reserva Federal eram favoráveis ao aperto monetário.
Para o ouro, as implicações são evidentes. Uma postura hawkish de Warsh elevaria as yields (rendibilidade) dos títulos do Tesouro e o dólar, aumentando o custo de oportunidade de deter metais sem rendimento e reforçando a moeda de reserva global, o dólar dos EUA. Um sinal dovish, ou mesmo deliberadamente ambíguo, teria exatamente o efeito oposto. Os rendimentos reais seriam comprimidos e o ouro poderia voltar a aproximar-se dos $5.000. Warsh defendeu que o aumento de produtividade impulsionado pela IA poderá revelar-se desinflacionista ao longo do tempo. Se este tema for abordado em maior detalhe em Jackson Hole, poderá sugerir que a Reserva Federal pode tolerar os níveis atuais de inflação sem subir as taxas. A verdade é que ninguém sabe o que Warsh dirá, e essa incerteza é, por si só, a variável mais importante que o mercado do ouro está atualmente a tentar incorporar nos preços.
Uma base estrutural
Independentemente do que Warsh disser em 28 de agosto, os fundamentos estruturais dos metais preciosos continuaram a fortalecer-se discretamente nas últimas semanas e meses. Numa publicação recente, Ray Dalio citou o valor de 11 biliões de dólares do serviço da dívida como base para a sua recomendação de que os investidores devem deter entre 10% e 15% do seu portfólio em ouro. Entretanto, os principais bancos centrais não deram sinais de abandonar a sua corrida ao ouro que já dura há anos. O Banco Popular da China prolongou a sua sequência de compras mensais consecutivas, e o inquérito mais recente do World Gold Council concluiu que um volume recorde de 45% dos bancos centrais planeia aumentar as suas reservas de ouro nos próximos 12 meses, citando a desdolarização e preocupações com a sustentabilidade orçamental como os principais motivos para a continuidade das compras. Muitos dos principais bancos apontam para previsões para o ouro no final do ano entre $4.500 e $4.700, com potencial de subida até aos $5.000, caso as condições macroeconómicas se mantiverem. Se os valores permanecerem neste intervalo, poderemos esperar uma consolidação lateral ou uma subida significativa face aos níveis atuais.
A situação da prata, por outro lado, é particularmente intrigante. O posicionamento especulativo na prata caiu para o vigésimo percentil das últimas 60 semanas, com uma base de posições curtas 40% superior à de meados de julho. Historicamente, este cenário antecipou recuperações acentuadas assim que surge um catalisador positivo. O rácio ouro/prata, que caiu abaixo de 45 no final de janeiro, no auge do mercado em alta, regressou desde então a cerca de 70. Os analistas da J.P. Morgan preveem que este valor normalize para a zona dos 60 pontos até ao final do ano, o que implica um desempenho superior da prata face ao ouro, caso o contexto macroeconómico enfraqueça. A utilidade industrial da prata em painéis solares, veículos elétricos e infraestruturas de centros de dados para IA é uma faca de dois gumes. Caso o crescimento global desiluda os participantes do mercado, a prata será mais penalizada do que o ouro. Contudo, caso se mantenha resiliente, o beta mais elevado da prata torna-se uma vantagem, e não uma desvantagem. Por enquanto, ambos os metais aguardam com expetativa, tal como o resto do mercado. Quando Warsh sair do púlpito na manhã de sexta-feira, para melhor ou para pior, é provável que o cenário se torne consideravelmente mais claro.
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